Imagine-se diante de um muro que nunca percebeu existir. Ele surge de súbito: alto, fechado, sem frestas. O peito aperta, a respiração encurta, e você chama essa sensação de pressão. Mas, ao olhar com mais atenção, percebe que esse muro não é feito de pedra. Ele é construído de expectativas alheias, medos aprendidos e rotinas aceitas sem questionamento. Quanto mais você tenta empurrá-lo, mais rígido ele parece. Até que o cansaço chega e, por dentro, algo estala. O muro não cai — ele se move. O obstáculo se transforma em passagem. O que você chama de colapso, Deus chama de impulso.
A resistência que aparece quando decidimos mudar não é sinal de erro, mas de alinhamento. É o aviso de que crescemos além do lugar onde estamos. O corpo reage, a mente projeta desastres, as vozes ao redor pedem cautela. Tudo parece dizer “pare”, quando, na verdade, está dizendo “avance”. A dor funciona como um radar: ela apita quando a zona de conforto está sendo rompida. Não existe alarme onde nada valioso está sendo tocado.
Quando surgem críticas, portas fechadas ou traições inesperadas, lembre-se: ninguém ataca quem está imóvel. Os golpes vêm contra quem está em movimento. A inveja, muitas vezes, é apenas o reconhecimento silencioso de que você já não cabe mais no espaço que tentaram lhe impor. Não se desperdiçam flechas no vazio; mira-se aquilo que ameaça escapar do alcance. O ataque, por mais duro que seja, carrega uma mensagem cifrada: você está autorizado a seguir.
Os lugares que nos mantêm presos raramente têm grades visíveis. Suas paredes se chamam culpa, vergonha, obrigação, “sempre foi assim”, “ninguém na família conseguiu”. Elas parecem sólidas porque são antigas, mas são feitas de hábito. Um passo decidido revela que não passam de poeira sustentada pelo tempo. Quando você se prepara para avançar, os guardiões desse sistema despertam: familiares pedem prudência, amigos estranham sua mudança, superiores questionam sua lealdade. O desconforto que surge não é sinal de erro; é o som das correntes sendo esticadas. Se doeu, é porque já estava rompendo.
O empurrão final quase nunca vem com delicadeza. Ele chega como perda, ruptura, falência, doença ou despedida. É o motor sendo ligado. Antes da decolagem, há barulho, tremor e medo. Mas sem esse caos, não existe impulso. A regra é simples: para avançar, é preciso soltar o que pesa. Cada “não” recebido pode ser transformado em força de propulsão. A pergunta certa não é como evitar a dor, mas o que ela pode comprar em termos de liberdade.
A dor não é dívida; é recurso. Quando ficamos parados, ela se acumula como frustração. Quando ousamos, ela se transforma em investimento. Cada lágrima paga um espaço maior de existência. Ao compreender isso, deixamos de pedir apenas alívio e passamos a buscar sentido: que esse sofrimento amplie o território da nossa vida. Nesse momento, a luta se transforma em negociação.
O casulo parece fim, mas é preparação. A lagarta não se transforma em borboleta ali dentro; ela apenas revela o que sempre foi. A adversidade não nos cria — ela nos expõe. O que surge depois não é uma nova versão, mas a versão original que recusou morrer sufocada.
Se tudo o que tenta te derrubar é, na verdade, o empurrão invisível para fora do ninho, fica a pergunta: qual é o próximo passo que você evita dar apenas porque a queda parece assustadora?
Rui Costa
